Supervisão desde Freud: para que e como
Freud instituiu o tripé Estudo, Supervisão e Análise Pessoal como formação necessária para o exercício da clínica psicanalítica desde os primórdios de sua criação.
A supervisão consiste no momento de análise da prática do terapeuta. Um espaço para que possamos refletir sobre o modo como alguém se constitui como analista, como se posiciona diante de seu cliente e como se relaciona com a teoria e a prática clínica.
O pai da psicanálise assinalava como função primordial da supervisão clínica o empenho na análise da contratransferência. O conceito de contratransferência em Freud serve para dizer da transferência do analista. E por que, então, ele não usou apenas o termo transferência? O que ela difere da transferência do paciente? Usando de termos que não os freudianos para explicar, mas sim palavras advindas de um campo conceitual aproximado à psicanálise, poderíamos inferir que o inventor da psicanálise talvez estivesse se esforçando para configurar a prática da supervisão como um campo diverso daquele em que se desenvolvia a prática da análise. Tal mudança implica em tomar o supervisionando em sua condição de profissional, e não na condição de paciente. É um deslocamento de lugares institucionais. A dupla Analista – Paciente, cede lugar à dupla Analista Supervisor – Analista Supervisionando. Para instituir a diferença entre essas duas práticas é necessário circunscrever o campo de trabalho da nova dupla de uma forma distinta da análise do divã dos pacientes. O termo contratransferência viria, então, marcar essa mudança.
Pensando em termos institucionais, podemos dizer que o espaço da supervisão deve ser diferente da psicoterapia. Não precisamos postular que a transferência do analista é uma transferência “diferente”, podendo incorrer no risco de em algum momento supor que ela possa ser mais “nobre” ou mesmo de conter uma substância outra. Quando Freud postula a transferência, fala dela sem se ater a algo fundamental e que a Profa. Marlene Guirado, do Instituto de Psicologia da USP, nos aponta com rigor: Quando transferimos, transferimos um modo de relação e, assim, reeditamos, imaginariamente, lugares institucionais, ou lugares de fala e escuta.
Sempre que o contexto parecer permitir, iremos reeditar o nosso modo preferente de nos relacionarmos. Por exemplo, ao entrar numa sala dentro de uma faculdade que está com todas as carteiras enfileiradas irei automaticamente escolher uma delas para sentar, caso eu seja um aluno, e esperar alguém chegar para iniciar a aula. Se eu for professor, farei isso apenas se não estiver gozando de bom funcionamento de minhas faculdades mentais ou se quiser causar algum tipo de estranhamento. A situação de contexto, sala de aula dentro de uma universidade com carteiras enfileiradas, por si só já determina uma série de comportamentos que são esperados para cada um dos agentes dessa instituição. No caso da análise não será diferente. O paciente tem o seu lugar, bem como o analista, e a essa dupla está previsto um tipo de relação, não é tudo que vale, e é a isso que o próprio Freud moraliza: tudo vale no nível da fantasia e da fala. Pressupomos, ainda, independentemente da corrente à qual o terapeuta se filie, que se trata de um serviço a ser oferecido com expectativas efeitos (ou resultados?) a serem atingidos.
No caso da supervisão, tomar o supervisionando como profissional, com tudo o que isso implica (seus medos, anseios, desejos, dúvidas), e com a certeza de que ele também sofre das mesmas questões que qualquer outra pessoa na condição de trabalhador (contas a pagar, necessidade de planejamento financeiro, busca de qualidade de vida, etc.), fará total diferença para o processo.
Digo isso porque já vi muito supervisor tomando o supervisionando na condição de paciente, ou até mesmo aqueles que acabam confundindo os papéis, quando se propõe a supervisionar o próprio paciente. Entendo que o trabalho de supervisão deve reservar a si o propósito de auxiliar os profissionais e estudantes em sua tarefa de se constituírem no profissional que desejam ser, realizando sua prática de maneira afinada com a reflexão, séria e critica, acerca de como ela deva acontecer.
Fará toda a diferença, também, tomar a clínica como instituição. Conceitos advindos da Análise do Discurso, como Gênero de Discurso e Cenografia, funcionam como operadores conceituais potentes para viabilizar uma análise de contexto da prática clínica, oferecendo uma visão 360° da situação analítica, saindo daquela obsoleta forma de pensar que o analista é uma folha em branco para as projeções do paciente ou que todos os "erros " de manejo do psicoterapeuta diz respeito a conteúdos ainda não trabalhados em sua própria terapia.
Contardo Calligaris, comparava o fazer do psicanalista com o do cirurgião que teria que abrir o próprio corpo para conhecer bem os seus órgãos e, assim, ter condições de conhecer os órgãos internos de seus pacientes. A metáfora é interessante e potente. É verdadeira, inclusive. E por isso considero importante que todo terapeuta se proponha à experiência de se sentar na poltrona (ou no divã) do paciente. Contudo, para não incorrermos em equívocos, no contexto da supervisão me parece mais interessante a comparação com o Jogador de Xadrez e seu Mestre Instrutor. Leia aqui o meu artigo na íntegra!



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