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O Analista Supervisor e o Instrutor de Xadrez

22 de set.
5 min de leitura

O que tem o jogo de Xadrez a ver com a análise realizada pelos psicanalistas no consultório? Nada! Para o bem da verdade, poderíamos dizer que ambos assemelham-se naquilo que se opõe, pelos seus inversos. Enquanto no xadrez a proposta é “travar a mente” do outro, restringindo cada vez mais o seu campo de ação até chegar ao xeque mate, onde não há mais ação possível, na análise o objetivo é “abrir a mente” do paciente para novos possíveis, por vezes nunca antes imaginados.

Dado que os objetivos são justamente opostos em uma prática e outra, podemos nos permitir a liberdade de pensar as similaridades do "jogo" que se estabelece em cena entre os dois parceiros em ambos os casos. Quem conhece o jogo de xadrez sabe que cada jogada, cada movimento de peças no tabuleiro, abre um campo de oportunidades e de riscos, tanto para si quanto para o oponente. Na clínica, cada frase, cada história, cada observação ou pergunta, cada movimento em cena também abre para um campo de inúmeras possibilidades e riscos. No xadrez temos uma dupla de oponentes e na clínica uma dupla de parceiros (pelo menos são essas as posições esperadas para que o processo terapêutico seja bem sucedido). Freud há muito tempo já nos advertia que as metáforas são sempre insuficientes e não substituem o fenômeno, mas nem por isso deixam de ser bons instrumentos para o exercício de pensamento, no sentido de aproximação do interlocutor rumo à compreensão que dele esperamos.


Isto posto, voltemos agora para a figura e função do supervisor como sendo análoga ao instrutor de xadrez. O instrutor de xadrez se constitui na figura que supostamente guarda uma maior experiência e domínio da técnica perante um conjunto de jogadas possíveis e irá instruir, tutorar, mostrar, para os jogadores que o autorizam na condição de mestre para ajudá-los a expandir suas habilidades, estudando juntos as inúmeras jogadas para que se amplie as chances de sucesso diante do campo de possibilidades e riscos que se abrem a cada jogada, a cada pequeno movimento dos atores em cena. O processo de aprendizagem implica em mostrar um bom número de efeitos possíveis quando ele posiciona seu peão em determinada casa, quais peças suas são “liberadas” nesse movimento, quais peças do outro são “contidas”, quais as possibilidades de ataque ele pode sofrer, como se defender, como uma defesa pode implicar num contra-ataque, e assim por diante.


Como dissemos, o contexto da clínica deve ser oposto à lógica ataque e contra-ataque, mas sim de cooperação entre a dupla do "jogo" para a construção de sentidos. Desta feita, o supervisor atentará para os movimentos do analista naquilo que tende a promover uma relação fecunda à compreensão de como aquele paciente que se põe em análise veio a se tornar quem ele é. Cabe a ele auxiliar seu supervisionando a perceber quais movimentos seus acabam por favorecer o bloqueio do pensamento e da compreensão (em vez de fazer fluir a fala e as associações) que ambos, paciente e analista, podem construir a respeito da subjetividade do paciente. Do mesmo modo, trabalhará em cima de hipóteses clínicas, de “jogadas” que possibilitem ao analista se reposicionar em cena para viabilizar que suas palavras possam sempre ser recebidas como ato de cuidado, por mais doloridas que possam ser à primeira vista. Abrem-se, assim, novos sentidos possíveis, e que se desdobram em novos movimentos, tanto do paciente como do terapeuta. Estamos diante da surpreendente, móvel e instável beleza da vida, do caminhar pelo desconhecido que é construir de forma autoral o sentido da própria existência.


O psicanalista atento pode perguntar, isso não seria a análise da contratransferência? Por que não? É, mas é mais, quando consideramos pela perspectiva aqui proposta. Trata-se da análise do jogo que vem sendo jogado entre os parceiros, cada qual na sua posição de analista e paciente a partir da fala do analista na supervisão, as idas e vindas da sessão, os produtos do trabalho, as dificuldades, o conjunto de sentidos possíveis envolvidos num ato, num simples gesto, em uma palavra, e a consideração do contexto, sempre complexo, traçando a compreensão da relação estabelecida e como agir para desatar os nós que podem estar impedindo o processo terapêutico de fluir. É o fazer fascinante do exercício do pensamento baseado em hipóteses a serem lançadas para que o analista ganhe repertório, para que possa compreender a importância em cada movimento seu. Assim como o estudo das jogadas dos grandes mestres do xadrez servem ao jogador, que nunca se esquece que o resultado final da partida depende também de como joga o seu adversário. Em uma psicanálise, a única possibilidade de sucesso reside no compromisso de que a dupla vai sempre jogar junto, nunca contra. E mesmo que o paciente insista em "jogar contra" o processo e às vezes a si mesmo, haverá o que se possa fazer. Na posição de supervisor, eu garanto isso!

Com essa afirmação, não tenho a intenção de atribuir ao analista a importância que poderia amedrontá-lo e estagná-lo numa falsa responsabilidade sobre a vida e a morte do paciente. É atribuir a ele a responsabilidade pelo processo de análise firmado no acordo inicial entre a dupla paciente e analista. Cabe, então, ao analista responder deste lugar de quem garante que tal processo ocorrerá enquanto o paciente vier para as sessões. O pressuposto é que o analista está lá para fazer acontecer a analítica da subjetividade de seu paciente, certo de que o efeito terapêutico se encontra, antes de tudo, como o resultado produto deste ato primordial. Ao paciente está garantida a possibilidade de não querer a análise, mas para isso ele terá que desistir, ir embora, interromper, reconhecer que aquilo que ele quer não é análise e sim outra coisa, arcar com a responsabilidade de sua escolha e aceitar as consequências. Neste caso, poderá encontrar em outro lugar o que procura, pois cabe ao psicólogo, mais especificamente ao psicanalista, estar à disposição para oferecer nada mais e nada menos que um cuidado de si pela analítica da subjetividade. Mas se o paciente continua a vir, é dever do analista cuidar para que a análise aconteça. E para tanto, deve estar devidamente capacitado a fazê-lo. E é função da supervisão contribuir para que essa capacitação se dê, conforme postulou Freud. Leia Aqui o artigo em que falo sobre esse assunto.


Tal qual as posições iniciais das peças no tabuleiro de xadrez, onde cada uma tem seu lugar previamente determinado, essas serão as posições iniciais dos parceiros em cena para que o trabalho possa ser desenvolvido: um analista que se proponha a cuidar de seu paciente garantindo um campo seguro para a análise e um paciente que confie em seu analista e se encontre disposto a se aventurar nesse surpreendente caminho do conhecimento de si.

 
 
 

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